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Entrevista especial: Mark Few, o técnico da Universidade de Gonzaga

Dom, 17 de Junho de 2012 10:13 Atualizado em Dom, 17 de Junho de 2012 21:45 Escrito por  Guilherme Tadeu, direto de São Sebastião do Paraíso
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Mark Few é técnico da Universidade de Gonzaga Mark Few é técnico da Universidade de Gonzaga Foto: Getty Images

Magro e simples, ele passa despercebido em São Sebastião do Paraíso. Mark Few é, dos três treinadores que comandam o time dos Estados Unidos, o menos badalado. O técnico principal, Billy Donovan, bi-campeão da NCAA, é o que mais atrai atenções: são muitos os pedidos de foto entre os profissionais que atuam nas delegações das equipes que disputam a Copa América e mesmo Shaka Smart, alçado à fama repentina por conta do desempenho fantástico da sua VCU, parece ser mais notado do que ele.

No entanto, nenhum membro da delegação estadunidense tem mais a ver com o basquete brasileiro do que ele. É que Mark Few é o comandante do programa de Gonzaga, universidade de médio porte nos Estados Unidos que teve em suas fileiras João Paulo Batista, personagem de um dos mais fascinantes times da história da NCAA, que ainda contava com Adam Morrison, Ronny Turiaf e outros nomes do basquete.

Eliminado de maneira dramática nos mata-mata universitários de 2006 (o time abriu larga vantagem e, com um erro de J.P. nos minutos finais colocou tudo a perder contra o timaço da UCLA), a história de Gonzaga ainda repercute no meio entre os mais fanáticos torcedores brasileiros que acompanham o universitário estadunidense.

De uma humildade acima da média e muita disposição, Mark Few aceitou nosso convite de sair da barulhenta Arena Olímpica para nos conceder uma entrevista em que falou sobre a nova função na seleção dos Estados Unidos, o basquete de base como um todo, suas experiências em Gonzaga e, claro, J.P. Batista.

O resultado deste bate-papo você confere abaixo, transcrito, ou, o original, em inglês e em vídeo, no final desta postagem. 

Foto: Getty ImagesFoto: Getty Images
Como começou esse projeto e por que você se tornou o assistente da seleção dos EUA sub-18?

Olha, é era algo que eu simplesmente nunca tinha feito antes. Eu fui abençoado para ter grandes recordações e grandes experiências em Gonzaga. Muitas pessoas excelentes, como J.P. Batista, Adam Morrison, Dan Dickau, Robert Sacre, Jeremy Pargo, muitos jogos do torneio decisivo da NCAA, mas eu nunca havia feito algo pela seleção dos Estados Unidos. Então eu quis fazer algo pelo país e ter algum tipo de experiência nova. Eu nunca havia estado no Brasil, e também eu queria trabalhar com Billy Donovan e Shaka Smart, pensei que poderia ser uma grande experiência para trazer meu conhecimento e espero ajudar da maneira que for possível.

Foi o Billy que te convidou?

Não, não, foi a USA Basketball.

E qual foi o projeto de desenvolvimento desse time? Era desenvolver um time para esse torneio? Preparar jogadores para o futuro? Por que, você sabe, eles ainda são jogadores colegiais e, nos Estados Unidos, os colegiais costumam jogar um jogo muito individual.

Muito. A ideia é basicamente guiar os jovens jogadores dos EUA no sistema da USA Basketball e, quem sabe, talvez um, talvez dois, talvez três desses possam jogar um dia na seleção. É muito difícil. Nós não temos os nossos melhores jogadores de 18 anos. Nós estamos sem alguns jogadores. Sabe, quando nós juntamos um time, nós tentamos ter formar o melhor grupo de jogadores para montar o melhor time. Vamos ver o que podemos fazer.

Quão importante foi o Redeem Team (seleção que conquistou o ouro em Pequim, apelidada de “Time da redenção”, em um trocadilho com o Dream Team de 1992) para o retorno da USA Basketball para o mundo do basquete?

Foi muito importante. Óbvio que nós temos a NBA, nós temos os melhores jogadores do mundo. Mas foi importante para todos voltarem a jogar pela seleção dos EUA. Nós não tivemos isso por um tempo. Agora, nossos melhores jogadores estão jogando pela seleção. Se você notar, Kevin Durant, Russell Westbrook, LeBron James, Kobe Bryant, todos esses caras estão jogando pelo time nacional.

Quais são as principais diferenças, para você, dos jogos colegiais, jogos FIBA, do jogo da NCAA?

Sabe, é uma longa progressão entre jogos colegiais até jogos da NCAA. Os jovens vão aprendendo a jogar mais duro, mais forte. Eles também aprendem a jogar com um propósito, muitas vezes no colegial eles não jogam com um propósito, eles só jogam. O grupo que nós temos agora fica justamente entre o colégio e o universitário e no curto tempo que temos, vamos prepará-los para o que vai acontecer na NCAA: dias muito longos, treinos muito longos, treinos muito duros, situações muito intensas. Então temos de prepará-los para grandes ambientes, grandes plateias e muita coisa em jogo. Então eles têm que crescer rápido.

Você acha que é possível que você observe de perto algum jogador deste torneio para até levar para Gonzaga, eventualmente?

Olha, eu espero que sim. Nós tivemos grande experiência com jogadores internacionais. Nós temos um jovem vindo da Polônia esse ano, de 2,11m.

Przmek, certo? Um pivô?Foto: Getty ImagesFoto: Getty Images

Isso, Karnowski, um pivô, e nós já tivemos J. P. Batista, um dos maiores jogadores na história do nosso programa e certamente um dos meus favoritos de todos os tempos, nós tivemos australianos, tivemos alemães, nós temos agora mesmo um alemão muito bom, Elias Harris, e sim, seria ótimo encontrar um novo brasileiro para levar para Gonzaga.

Fale um pouco sobre aquele time que tinha J.P. Batista, Adam Morrison. Aquele time é muito familiar aqui para o público brasileiro. Mesmo com aquele jogo...

Aquele time era ótimo. Por dois anos, tivemos J.P. jogando com Ronny Turiaf, Adam Morrison, Derek Ravio, E. Knight, foi um time de basquete muito bom, mesmo Jeremy Pargo. Tivemos vários jogadores com passagem na NBA nesse time. Era um time muito fácil de treinar: muito competitivo, muito talentosos. J.P. foi tão consistente: eram 20 pontos e 10 rebotes toda noite, e fazia isso de maneira tão graciosa, tão silenciosa, humilde, um grande exemplo para os outros jogadores, muito forte, um cara cristão que tinha um caráter muito grande. Eu espero que por aqui vocês não definam ele por causa daquele jogo. Ele teve uma carreira fantástica, ele não conseguiu chegar à NBA, mas ele liderou o melhor time que eu já tive em Gonzaga e eu tive grandes times.

E você, consegue nos explicar o que houve com Adam Morrison? Por que ele não se tornou o que todos esperavam?

Foto: Getty ImagesFoto: Getty Images

Essa é uma grande questão nos Estados Unidos. Olha, ele teve médias de dígitos duplos no seu primeiro ano na NBA e então ele estourou o joelho. Ele rompeu os ligamentos. E a combinação de voltar disso, ele perdeu confiança e Adam é um jogador muito confiante, e uma sequência de situações ruins, combinações ruins (estilo do treinador, estilo de jogo). Adam precisa marcar, ele é um cestinha e se ele ficar em uma situação de que ele é apenas um chutador ou um coadjuvante, Adam não é ótimo nesse sistema.

E quem será o próximo grande jogador profissional saído de Gonzaga?

Na NBA?

Pode ser, talvez...

Olha, Robert Sacre, deste ano, tem uma chance na NBA. Nós temos um jovem, Elias Harris, neste programa que tem chance de ser muito bom. Nossos armadores também. Nós tivemos dois calouros na armação muito bons jogadores, eles foram titulares no ano de calouro, o que é muito raro em Gonzaga: Kevin Pangos, do Canadá, e Gary Bell. Eles foram titulares como calouros e jogaram muito, muito bem.

E você também treinou David Stockton, que é filho de John Stockton.

É, David Stockton!

E como foi a experiência? John Stockton é aquele típico pai de jogador, que quer que o filho jogue o tempo todo?

É, mas olha só, ele vem em todos os jogos, tá sempre em volta do time e nossos jogadores aprendem muito com ele. Ele apoia muito, é muito positivo.

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