O jogo dessa tarde entre Brasil e República Dominicana trouxe uma dupla sensação de Déjavù. A primeira tinha a ver com a óbvia constatação de que essas equipes se enfrentavam mais um vez em busca de uma vaga. Se em Mar Del Plata o que estava em jogo eram as olimpíadas, em Guadalajara o prêmio era menor: as semi-finais do Pan.
A história do jogo mostrava que as recordações do Pré-Olímpico não eram apenas relacionadas às bandeiras representadas de cada lado. Taticamente o duelo repetiu o desenho da semifinal da Copa América de Mar Del Plata. Os dominicanos insistiram no jogo interno e controlou todo o nosso garrafão. Jack Martinez, ele de novo, foi absolutamente dominante e não tivemos resposta pra ele. No entanto, apesar desse grave problema, a equipe de Magnano encontrou soluções e soube ditar o ritmo do jogo por três quartos.
O dramático é que aí é que entra a segunda sensação de déjavù, de uma lembrança mais recente: o filme no último período foi exatamente igual ao de ontem. Inexplicavelmente, depois de abrir larga vantagem, o Brasil viu seu adversário virar o placar.
Confesso que nunca vi algo parecido. Ainda que esse campeonato não tenha nenhuma relevância técnica, o que aconteceu nos dois últimos jogos em Guadalajara não tem explicações racionais. Pode-se procurar pêlo em ovos, mas é improvável encontrar qualquer argumento que convença. O problema não foi perder, mas a maneira que perdeu: um autêntico vexame, daqueles que marcaram toda a década passada.
No saldo final, para além de alguns dias de experiência para os jovens jogadores, o Pan só trouxe prejuízo ao basquete brasileiro: baixou nosso moral, incomodou equipes que disputam competições importantes para seus planejamentos e desgastou a imagem que vinha boa perante a uma das raras oportunidades de exposição na mídia.
Um dos raros casos em que um W.O. seria menos vergonhoso.
Parece que as coisas realmente mudaram no nosso basquete. O nosso antigo refúgio nos tempos tristes, os Jogos Pan-Americanos, acabaram maculados essa noite, com uma atuação desastrosa da seleção brasileira. Foi a primeira derrota na competição deste século: a última havia sido em 1999, contra os mesmos EUA, por 73-71, em Winnipeg. Foram 13 vitórias consecutivas e três títulos desde então (na própria Winnipeg, em Santo Domingo e no Rio), que pouco serviram para o nosso basquete que passou pelo pior período de sua história nesta década. Inusitadamente, algumas semanas após voltar às Olimpíadas, o cenário de vitórias panamericanas foi interrompido pela surra sofrida esta noite.
Isso serve pra dizer que, independente das críticas que virão nos parágrafos seguintes, a partida de hoje não influencia em absolutamente nada no excepcional trabalho de Rubén Magnano na seleção brasileira e que, mesmo Guilherme e Marcelinho, péssimos esta noite, não merecem ser julgados a partir do que vimos no jogo de hoje. Este campeonato vem totalmente fora de hora e só o fato de estar lá, experimentando o sentimento olímpico e passando a experiência para outros jovens que lá estão batalhando por seu lugar ao sol, os dois já merecem certo perdão antecipado.
Leia a crônica do jogo: Brasil leva virada incrível de seleção 'vira-lata' dos Estados Unidos
Tudo isso posto, foi de maneira melancólica que o Brasil perdeu hoje para os EUA numa partida absolutamente inexplicável. Nenhuma alternativa tática ou fator colateral, nem a defesa dos EUA e nem a péssima arbitragem, podem explicar como o time que abriu 17 pontos no terceiro quarto tomou certa de três dezenas de pontos de maneira consecutiva sem conseguir nenhuma reação. Se a crônica do jogo seria uma até o belo início do terceiro quarto, com a derrota não há quem se salve: nem Benite, nem Nezinho, nem Guilherme, nem Magnano.
O Brasil perdeu e perdeu feio, e, do meio do terceiro período para frente, perdeu jogando mal. Pior que isso: jogando mal e se preocupando em fazer confusão com um time que teria dificuldades em vencer qualquer um dos semifinalistas do Campeonato Paulista. O time foi previsível, abusou do chute dos três pontos, defendeu mal e não teve consistência mental para consolidar a boa vantagem que construiu num péssimo momento do time adversário. Além disso, suas principais referências não souberam fechar o jogo e seus jovens jogadores quando entraram, nada fizeram além de perpetuar o mau momento. O time pode enfrentar os EUA novamente na final (embora eu tenha bastante dificuldade em acreditar que esse time norte-americano pode chegar à decisão do torneio) mas, para isso, terá que juntar os cacos para jogar amanhã logo cedo (16h de Brasília), uma agenda perigosa que pode até ameaçar um vexame.
Uma derrota amanhã, que selaria a eliminação precoce no Pan de Guadalajara, não influenciaria em nada, ao menos em termos técnicos, o bom momento que a volta às Olimpíadas possibilitou. Mas desperdiçar a chance que um evento como esse, com ampla cobertura da imprensa e até jogos transmitidos em TV aberta, não é nem de perto o que nossa modalidade precisa. Que o apagão tenha sido apenas algo extremamente inexplicável e facilmente possível de se evitar nos próximos dias. Mas, cá entre nós, cair já nesse Pan nem seria o fim do mundo (sei que tem muito time que até agradeceria).
O time da cidade do basquete sangra no Paulista. O time foi surrado no primeiro jogo dos playoffs contra o São José e ontem, com dignidade, jogou bem mas perdeu a segunda. Uma derrota em casa na próxima terça-feira pode significar uma eliminação por varrida: humilhação inaceitável para os fanáticos francanos.
A pergunta que fica, porém, é a seguinte: o que fez Franca, daquele honroso vice-campeonato nacional, se tornar este time mediano, capaz de perder cinco jogos na fase de classificação (para Bauru e Limeira duas vezes e uma vez para Rio Claro)? A pergunta é um pouco mais delicada: o que houve com Franca que não consegue mais vencer times fortes? Vale lembrar que mesmo o time vice-campeão nacional não era exatamente um "campeão de audiência". Mas o grupo do ano passado demonstrou fibra por diversas vezes, tendo como ponto ápice o fato de eliminar o Flamengo, um time recheado de armas e com certo favoritismo para chegar à final. Neste Paulista, quando enfrentou um time qualificado, Franca foi presa fácil, até jogando dentro de casa.
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A diretoria se apressou e trocou Brian Woodward por dois estadunidenses. Confesso não os conhecer. Isso pode não ser um bom sinal, mas dou a mão à palmatória porque também não conhecia Larry quando veio a Bauru. De qualquer maneira, me parece que nenhum deles chega com status de quem realmente pode transformar Franca em outro time. Pelo próprio sistema de Hélio Rubens, não vejo grandes possibilidades de que um deles tenha um papel similar aos de Larry Taylor, Shamell, Robby Collum ou Robert Day, apenas para citar alguns dos melhores estrangeiros que atuam por aqui.
Penso, como qualquer clichê, que o problema remonta à origem: a construção do elenco. Para se vencer times fortes, você precisa ter um elenco forte: é básico. Tenho a impressão que Franca pecou de três maneiras diferentes nessa pré-temporada e por isso montou um time tão frustrante para sua apaixonada torcida:
1) não soube motivar jovens talentosos como Benite e Dedé a continuarem em Franca com um plano de carreira mais longo, dando-lhes protagonismo. Ouvi de ambos e do presidente Teixeira que o problema não foi o acerto financeiro. Franca realmente tentou segurá-los com boas propostas. Mas isso não resolve o tempo todo. Nos dois casos, cada um com sua particularidade, o maior derrotado foi o time francano porque viu, com eles, simplesmente 22 pontos por jogo (Benite tinha média de 14 e Dedé de oito) desaparecerem.
2) deu de ombros para jogadores coadjuvantes, como Rogério, Spillers e Lewis. Obviamente cada caso destes também tem suas peculiaridades, mas você não pode abrir mão de três jogadores altos e móveis como eles e achar que tudo está bem. Estou de acordo que Rogério não é mais o mesmo, que há milhões de estadunidenses melhores que Spillers e que Lewis era muito inconstante. No entanto, Franca não conseguiu ninguém melhor que eles (ainda que Baby tenha alguns números atraentes) e você não desfaz de um time que acabou de ser vice-campeão brasileiro simplesmente achando que pode ir ao mercado e conseguir coisas melhores. Esse foi exatamente o mesmo erro francano em relação a Tony Stockman. Todos achavam que o escolta era muito bom, muito talentoso, mas tinham a impressão que conseguiriam coisa melhor. Não conseguiram.
3) as contratações não foram boas. A primeira prova disso foi a troca de estadunidenses. Mandar Woodward embora é como dizer :"Ok, erramos". E a aposta em Baby não é, nem de longe, a mais segura. O jogador foi considerado a pior contratação do NBB 2 e do NBB 3 e um reforço desse tipo é daqueles casos em que o empregador confia mais na esperança do que na experiência. Além deles, chegou Wanderson, que ainda que seja competente em algumas funções, não é um jogador de elite do basquete nacional.
Hélio Rubens, que para mim ainda é o técnico brasileiro em atividade que melhor conduz uma partida e de longe o que mais conhece taticamente o jogo de basquete, também tem culpa no cartório uma vez que tem voz ativa nas montagens de elenco. Mas Hélio não é problema, é solução. Que outro técnico disponível no mercado (ou até mesmo entre os empregados) teria a qualidade de Hélio? Ainda que o custo disso seja aguentar ano após ano seus protegidos (fato que, me parece, influenciou diretamente no ponto 1 que abordei acima), não tenho dúvida que a família Garcia faz, neste momento, muito mais bem do que mal ao basquete francano.
A questão é: mesmo com uma improvável virada contra São José, pouca gente apostaria dinheiro numa caminhada francana rumo ao título paulista e, menos ainda, numa participação dominante no NBB que este ano estará ainda mais disputado. Ser coadjuvante certamente não faz parte (não pode fazer!) dos planos de Franca, mas o labirinto está armado: nenhum jogador de elite do basquete nacional está disponível no mercado (com exceção dos jogadores da NBA durante o locaute) e o tino dos francanos com estrangeiros nos últimos tempos não sugere nada que traga otimismo para esse período que antecede o NBB. O cenário, francamente, não é nada promissor.
Guilherme Tadeu
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