O Brasil enfrenta, logo mais, a seleção dos Estados Unidos no primeiro amistoso fora da América do Sul neste estágio avançado de preparação olímpica.
Acompanhei, pela TV, os amistosos contra Grécia, Nigéria, Nova Zelândia, Argentina (em Buenos Aires) e Chile e, pessoalmente, os dois jogos em Foz do Iguaçu, nos duelos contra a Argentina e Espanha B. Além disso, tive a oportunidade de fazer a cobertura do Basketeria neste período, o que me permitiu estar em contato com atletas e comissão técnica, especialmente Rubén Magnano que atendeu a imprensa praticamente todos os dias.
As observações abaixo são, portanto, fruto de pesquisa e observação deste período:
Podemos dizer que a seleção partiu deixando ótima impressão. Vencer dois adversários de quem nos acostumamos a perder como Grécia e Argentina enche de moral, não só pelos triunfos, mas da maneira que eles vieram. Não fosse a arbitragem catastrófica no Luna Park, chegaríamos a Washington invictos.
Não foi ideal, no entanto, a ausência de alguns jogadores por situações específicas. Neste aspecto, certamente a preparação não atingiu os seus objetivos. Primeiro, Leandrinho não pôde treinar desde o princípio com o grupo por conta de problemas de seguro. Depois foi a lesão de Marquinhos que o afasta até hoje dos movimentos mais bruscos. Na Argentina, foi a vez de Nenê assustar. No Brasil, Leandrinho torceu o pé e também passou a ser poupado. É normal que, às vésperas das Olimpíadas, haja muito cuidado para não perder um atleta desnecessariamente. No entanto, seria ótimo vê-los mais tempo juntos. Ainda não foi possível.
Para lidar com tantos problemas, Magnano encontrou já soluções no elenco que, ainda que vislumbrasse no ato da convocação, não era o plano A: a ideia de usar Larry Taylor como um jogador da posição 2 caiu muito bem, muitas vezes ao lado de Huertas e outras com Raulzinho. Larry evoluiu demais defensivamente ao longo da preparação e, jogo a jogo, tem se soltado no ataque.
Os amistosos também mostraram para aqueles adversários que viram vídeos e tentam defender a seleção brasileira que se a ideia for parar o ataque do Brasil, é importante não dar espaço para chutes distantes. Marcelinho Machado parece mais calibrado do que nunca (o que, no caso dele, é muita coisa) e Leandrinho têm se mostrado gatilhos perigosíssimos. Os chutes têm sido equilibrados, trabalhados e raro (quase nunca) precipitados.
Foto: Alfredo Lauria - Basketeria
O nosso jogo interno mostrou força em alguns momentos, embora ainda esteja muito longe de suas potencialidades. Nenê ainda não explodiu, embora já tenha dado mostras de que pode ser um jogador dominante também na FIBA. Tiago Splitter aos poucos azeita o seu arsenal ofensivo, embora ainda esteja muito longe daquele defensor que tanto gostávamos de ver. Anderson Varejão o contrário: ainda pena no ataque (sua bola de meia distância ainda não caiu), mas é um monstro defensivo. Esse trio é espetacular! E que falta faz Hettsheimeir para compor, com eles, um quarteto!
Com um garrafão sólido e cheio de opções, Magnano tem gostado cada vez mais de usar Guilherme como um ala 3. Guilherme tem um arsenal ofensivo típico para um jogador desta posição se falarmos de nível internacional. No entanto, deve penar para marcar os 3 mais atléticos do mundo (caso de Ginóbili, Rudy Fernandez, LeBron James, por exemplo). Nestas situações, é provável que o treinador da seleção volte a apostar em Alex.
Marcelinho Huertas é um grande jogador e, na seleção brasileira, atua em um nível de excelência comparado aos grandes armadores do basquete mundial. Erra pouco, está com a bola nas mãos o tempo todo, controla o ritmo, dita o tom de cada posse e, além de tudo, é um líder no time. Melhor ainda é que parece que Magnano, enfim, confiará em seus reservas e dará descanso ao craque para que possa jogar mais intenso nos minutos que estiver em quadra.
Foto: Alfredo Lauria - Basketeria
A defesa do Brasil é o ponto alto dessa preparação. A presença de Nenê no garrafão é absolutamente intimidadora e, nas raras vezes que fez dupla com Anderson Varejão, o que se via era pânico dos pivôs adversários. No perímetro, Alex continua o touro de sempre e Marcelinho Huertas, podendo jogar 30 minutos por jogo (em vez dos 40 das últimas competições), deve defender muito melhor.
Larry parece ser, para Magnano, o seu segundo melhor defensor de perímetro. Excepcional movimento de pernas, salta muito, tem intensidade, cumpre seu ofício, é capaz de rebotear. A altura vai lhe comprometer para defender laterais, mas já é possível vislumbrar uma dupla com Alex para defender equipes que tenham armadores e escoltas muito rápidos e pontuadores.
O jogaço de logo mais deve ser pensado como apenas um no caminho para Londres. Magnano deixou claro em Foz que se tiver que ganhar um jogo dos EUA, ele não deveria ser um amistoso, mas sim nas Olimpíadas. Ainda assim, será interessante para ver como tais opções testadas até aqui se saem contra os melhores jogadores do planeta.
A certeza é que estamos indo na direção certa. Estar no bom caminho, por si só, não garante nada. No entanto, nada é possível sem que o começo tenha sido bem trilhado. Seguimos agora, distantes, na torcida.